(continuação)
Breve relato crítico do evento na Ordem dos Arquitectos
in Revista arqa #88/89
por Luís Santiago Baptista
A 2ª sessão do programa GERAÇÃO Z #2, que decorreu entre 4 e 26 de Novembro, apresentou desta feita os ateliers Extrastudio e Atelier Data. Embora mantendo a autonomia de cada exposição individual, o Extrastudio e o Atelier Data partiram de uma estrutura expositiva comum, uma longa mesa em esferovite que acompanhava a longitudinalidade do espaço da galeria. Mais uma vez uma aposta na contaminação, neste caso não propriamente de práticas, mas de abordagem estrutural ao espaço expositivo. A proposta do Extrastudio, intitulada “Full-Size”, apresentava 4 projectos diferentes através de imagens e textos colados na secção respectiva da referida mesa. Mas a força da proposta expositiva não estava exactamente na mesa mas na construção da sua envolvente arquitectónica, que remetia para os 4 projectos apresentados, através de 4 superfícies individuais à “escala-real” de tratamento de paredes e tecto. Grelhas de protecção e sombreamento e perfurações alusivas e decorativas configuraram este espaço intensamente cenográfico, exponenciado por uma iluminação periférica surpreendentemente eficaz. O efeito poderoso conseguido revela o interesse do Extrastudio na investigação projectual da membrana entre interior e exterior e do jogo entre cheio e vazio, aliado aos processos técnicos e construtivos que o permitem. Por outro lado, o Atelier Data concentrou a sua intervenção expositiva na mesa propriamente dita, com uma proposta denominada “Mesa de Ensaio”. Este projecto singular encarou a mesa pré-definida como uma topografia artificial em mutação constante através da participação activa dos visitantes. Maquetas de edifícios do atelier, elementos à escala de vegetação e mobiliário, veículos de brincar e miniaturas de pessoas habitaram transitoriamente esta paisagem de tonalidade utópica. O Atelier Data mostrou assim a sua produção arquitectónica em ambiente lúdico, revelando a sua abordagem intencional mas mais aberta e descomprometida à profissão. O jogo não funciona aqui como escape, mas antes como manifesto por uma arquitectura mais participada.
No dia 4 de Dezembro, logo a seguir à inauguração desta segunda sessão do GERAÇÃO Z #2, decorreu a correspondente conferência-debate, com os ateliers Extrastudio e Atelier Data, o arquitecto e crítico convidado Ricardo Carvalho, e moderação de Luís Santiago Baptista. Depois de uma breve análise em volta da recepção crítica do programa GERAÇÃO Z feita pelo comissário, deu-se início às apresentações dos ateliers. João Costa Ribeiro e João Ferrão do Extrastudio apresentaram os principais projectos do atelier, mostrando não apenas os resultados mas os processos projectuais e produtivos que os engendraram. A ideia de que cada projecto é um caso específico, dentro de um percurso profissional mais alargado, ficou assim bem patente, no âmbito de uma confiança nos instrumentos tradicionais da disciplina. Pelo contrário, o Atelier Data, representado por Inês Vicente e Marta Frazão, optou por uma apresentação assumidamente diagramática, patente tanto a nível da organização produtiva como das propostas projectuais. A abordagem diagramática do Atelier Data permanece assim como hipótese de conciliação entre a abertura da actividade projectual e as exigências da realidade produtiva. De seguida, o crítico convidado Ricardo Carvalho desenvolveu com subtileza a sua posição sobre a questão geracional, fazendo um percurso pelas conexões históricas entre diversos arquitectos de diferentes gerações modernas e contemporâneas. Assumindo a existência actual de rupturas geracionais, o crítico defendeu a necessidade de criação de pontes frutíferas com as gerações anteriores e com o saber disciplinar, questionando a eventual superficialidade de algumas abordagens actuais. O debate entre os presentes na mesa e com a audiência que se seguiu fez-se em torno desta relação problemática entre os instrumentos tradicionais da disciplina e as exigências da actual realidade produtiva. E, mais uma vez, como não poderia deixar de ser, as opiniões divergiram, num contexto de discussão onde se revelaram não só convicções mas igualmente tensões e mesmo incompreensões.
Por fim, no dia 18 de Novembro fechou-se o ciclo GERAÇÃO Z #2 com a conferência NEXT de antevisão do próximo ciclo de exposições GERAÇÃO Z #3, agendado para o ano de 2011. Apresentaram o seu trabalho mais 3 práticas emergentes, ateliermob, dass e Blaanc, uma vez que o quarto atelier convidado, o On-Office, não conseguiu comparecer por motivos de força maior. Em primeiro lugar, o ateliermob de Tiago Mota Saraiva e Andreia Salavessa apresentaram uma conferência manifesto, mostrando a sua produção projectual contextualizada de modo afirmativo pela actual situação globalizada de crise política, económica e social. Em segundo lugar, os dass de David Seabra e Susan Roeseler mostraram a sua abordagem criativa e interventiva ao projecto que cruza de modo intencional as práticas da arquitectura e do design. Por fim, as Blaanc, compostas por Maria do Carmo Caldeira, Maria da Paz Braga, Lara Camilla Pinho e Ana Morgado, centraram a sua apresentação nos seus projectos para contextos de crise humanitária, realizados em parceria com João Caeiro, defendendo a necessidade de novas abordagens disciplinares que extravasem a encomenda tradicional. O debate seria neste caso mais morno embora animado.
Concluídos com sucesso, e algum debate e polémica, os dois primeiros ciclos do programa curatorial GERAÇÃO Z, resta-nos aguardar com expectativa a realização em 2011 do novo ciclo GERAÇÃO Z #3, onde prometemos continuar a divulgar consistentemente e discutir criticamente a geração emergente da arquitectura portuguesa contemporânea.